30 de outubro de 2023

14 de fevereiro de 2012

16 de abril de 2009

Acidente




O próprio termo já elimina a possibilidade de haver culpados, mas descrever um acidente de trânsito sem apontar culpados é quase impossível, principalmente quando se está envolvido nele, como era o caso de Jonas. Contava ele, na oficina de motos do Manoel, que a culpa foi toda do motorista do Fusca Azul. Com o retrovisor quebrado na mão direita e gesticulando com a outra ele fazia pose como se estivesse na moto enquanto contava o caso e se alterava, aumentando o tom de voz e perdendo a calma principalmente na parte em que dizia como o Fusca Azul se aproximou em alta velocidade pela esquerda e impediu que ele desviasse do ônibus, Jonas lembrava exatamente de tudo que viu no segundo em que aconteceu e tinha certeza que o motorista do Fusca Azul (definido por ele como "safado") tinha fechado ele por maldade.
- Porque ele faria isso? - Perguntou Manoel, com aquele ar de descaso enquanto encaixava o retrovisor novo na moto de Jonas.
- Não sei! - Respondeu Jonas - Porque é um filho da puta! Se eu não tivesse sido bom pra desviar do ônibus eu tinha entrado na traseira dele, mesmo assim meu retrovisor ficou no ônibus e eu ainda bati o braço, tá doendo até agora, essa porra! - Disse Jonas, quase gritando com a mão no cotovelo direito.
- Graças a Deus não aconteceu nada de grave né? - Falou Manoel, olhando pra calculadora - O retrovisor original é R$ 33.50, como só vende o par eu faço pra você por R$ 65,00, incluindo a mão de obra.
- Sessenta e cinco conto?? - Jonas gritou arregalando os olhos - Puta que pariu! Eu mato esse filho da puta. Você ainda diz que não aconteceu nada de grave?
- Nada de grave - Disse Manoel quase rindo - Imagina se não tivesse sido um ônibus.

Com isso Jonas concordou.

Mais tarde, na academia...

- Mas eu fui bom sim! - disse Jonas para o treinador - Eu nem cheguei a cair nem nada, só quebrou o retrovisor e eu bati o braço, se fosse outro teria batido atrás do ônibus ou não teria aguentado a dor, mas eu aguentei, é que agora ainda tá doendo um pouco - Explicou Jonas.
- Tá, então tá dispensado hoje - Disse o treinador colocando a mão atrás do ombro de Jonas.
- Não! - Jonas levantou e falou rapidamente - Mas eu quero treinar!
- Não vai treinar sem fazer exercícios - Disse o treinador quase empurrando o Jonas - Vai pra casa, descansa e vê se vai no médico ver esse braço viu! Senão você vai morrer com esse braço. - Acrescentou ele rindo.
- Que morrer o que! - Falou Jonas, já perdendo a paciência - Não foi nada de grave, não!
- Graças a Deus que não foi nada grave né? - O treinador dizia isso já encostando a grade da academia, enquanto Jonas ía saindo.

Jonas acabou cedendo ao pedido do treinador porque sabia muito bem que ele era experiente, mas Jonas queria mesmo era lutar no tatame, descontar a raiva de alguma forma, mas acabou indo pra casa dirigindo a moto com segurança pela faixa da direita, olhava atento pra todos os carros procurando o Fusca Azul, as imagens se repetiam na mente dele e ele podia lembrar bem do Fusca que era um pouco clássico, com detalhes prateados e faróis traseiros no estilo do Fusca mais antigo, ele tinha certeza que já tinha visto esse carro antes pois o movimento daquela rua era na maioria composto por carros do bairro, mas Jonas nunca tinha prestado atenção no motorista, mas de uma coisa ele tinha certeza:

- Na próxima vez que eu ver esse Fusca, ele vai ver como poderia ter acontecido algo grave, não tem outro Fusca Azul daquele andando por aqui - pensou ele.

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Otávio chegou cedo no consultório para ser o primeiro a ser atendido, rezando para que o dentista não precisasse usar aquela máquina com um barulho assutador que usou da última vez, ficou tentando lembrar algum fato para justificar a infecção quando o dentista lhe deu a notícia, o dentista perguntou se ele tinha cachorro ou se tinha tido contato com algum animal, ou comido alguma comida de fonte duvidosa, Otávio garantiu que odiava cachorros ou qualquer animais de estimação e que tinha uma alimentação saudável.

- Eu notei que você tem o hábito de roer as unhas - disse o dentista - Você por acaso teve contato com alguma sujeira ou substância química nas últimas semanas?


Otávio fez uma pausa olhando para o nada e um fato lhe ocorreu, mas era uma história tão absurda que ele jamais contaria para alguém.


- Não que eu me lembre - Respondeu Otávio.

- É estranho - disse o dentista - Até porque a primeira vez que você veio aqui umas semanas atrás a sua boca não estava com esse sangramento.

- É verdade, começou depois da consulta. - Otávio já insinuava a culpa do dentista.
- Pois é Otávio - continuou o dentista - Após certos procedimentos como aquele que eu fiz em você, a boca pode ficar fragilizada por alguns dias. É provável que você tenha contraído alguma bactéria, via oral.

Otávio pensou mais uma vez no fato que havia ocorrido no banheiro na semana retrasada, depois pensou melhor e falou que não se lembrava de nada fora do comum.

- Mas, enfim.. - Disse Otávio querendo mudar de assunto - o que pode ser feito agora?
- Não se preocupe, vamos marcar uns exames, por enquanto vou te passar uns antibióticos.

Assim ficou definido e Otávio não quis mais tocar naquele assunto, também tinha que ir embora logo pra não chegar muito tarde no trabalho, desceu as escadas com pressa e entrou no carro, dirigiu para o trabalho mais rápido do que o normal, não queria chegar atrasado demais pois todos iriam reparar.

Otávio era tímido e não gostava de chamar atenção, e também quanto mais tarde chegasse, menor era a chance de encontrar uma boa vaga pra estacionar o carro, ele tinha medo de deixar em um lugar qualquer e alguém fazer alguma coisa com o Fusca Azul 76 que pertenceu ao pai dele, super conservado sem nenhuma melhoria visual moderna, tudo no estilo clássico com detalhes prateados e tudo.Otávio tinha o máximo cuidado com esse Fusca Azul, mas naquela manhã ele estava além de apressado, distraído pensando sobre a bactéria na boca dele, naquela altura ele já tinha certeza que a bactéria havia surgido do vaso sanitário do banheiro aonde ele trabalhava.


- Meu Deus, eu poderia até processá-los! - Pensou ele - Mas como explicar uma coisa dessas?
Otávio se imaginou em um tribunal contando o caso na frente do júri:

- O que acontece é que aquele banheiro nunca funcionou muito bem, e naquele dia eu fui no banheiro porque estava muito apertado, pois, normalmente eu não vou nesse banheiro, mas nesse dia eu precisava muito.. você sabe.. - Como ele diria isso pro júri? Sempre achou a palavra "defecar" mais feia do que qualquer gíria.
- O que aconteceu foi que a descarga não funcionava, então eu prontamente tive uma idéia - Otávio até se orgulhava da idéia que ele julgava genial - eu peguei o cesto de lixo, tirei o saco que por sinal estava bem cheio e isso já é contato suficiente para eu me infectar, então eu tentei colocar na torneira do lavatório, mas eu notei que o cesto não cabia embaixo da torneira, quero dizer.. ele encheu até a metade de água, mas quando eu fui tirar de debaixo da torneira ele enganchou e derramou toda a água, molhou até minha calça pois eu estava enconstado no lavatório, então eu tive minha segunda idéia, veja o que eu fiz, embaixo do lavatório, no cano do ralo tinha um desses reservatórios, sabe? Desses que parecem um copo e ficam na curva do cano pra reter sujeiras que descem pelo ralo. Então eu o tirei para a água do ralo cair no cesto de lixo e na hora que eu fiz isso caiu muita sujeira de dentro dele, direto na minha mão! - Otávio faria uma pausa e olharia pro júri que com certeza já teria se convencido que a bactéria havia sido contraída de lá.

No entanto Otávio ainda precisaria concluir a história e nisso entraria numa parte mais absurda.


- Tá, eu admito - Otávio se daria por vencido - Quando eu enchi o cesto de lixo com a água que descia pelo ralo do lavatório, eu a usei pra dar uma descarga manual, mas depois de dois cestos cheios de água ainda ficou uma última... como eu poderia dizer? Uma última "coisa"!
O júri inteiro se espantaria com isso - Essa última "coisa" não desceria de jeito nenhum, então eu enfiei minha mão no vaso sanitário, quase vomitando e a peguei com cuidado, sem fechar muito a mão, - Otávio diria isso gesticulando - Então eu peguei o saco de lixo que já estava bem cheio, levantei a "coisa" e falei com convicção: "Morra!" Então a soquei dentro do saco de lixo, mas depois disso eu lavei bem a mão, repetidas vezes.

Otávio continuou dirigindo e resolveu esquecer a idéia de processar a empresa. Era melhor esquecer o assunto, não deveria ser nada de muito grave, além do mais nada comprovava que aquela bactéria era do banheiro, ele pensou bem e concluiu que é normal a pessoa sujar as mãos e tudo que podia ser feito era lavá-las.

Chegando a sala em que trabalhava, sua colega de trabalho, Ana, que se sentava na mesa ao lado da dele logo perguntou sobre a consulta, Otávio tinha avisado a ela que iria ao dentista, só pra ela, pois era a única pessoa que ele conversava no trabalho, ele falou poucas palavras sobre a possível bactéria mas não entrou em detalhes. Pouco depois um colega de trabalho disse que todos iriam sair para algum lugar, pois afinal era sexta-feira, Otávio nem considerou a idéia de ir, até que Ana disse que era uma ótima idéia e chamou ele pra ir também.


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- Pois se isso é comigo, eu ía atrás do cara e quebrava a cara dele, arrancava ele pela janela do Fusca e metia a cara dele no asfalto, chutava tanto a barriga dele que ele ía ficar mijando sangue na calçada até a ambulância chegar - Dizia Maurício sentado ao lado de Jonas na mesa do bar, Maurício era um lutador que treinava com Jonas e quando ouviu a história do acidente não acreditou que tinha ficado por isso mesmo.
- Eu não deixei pra lá! - Insistiu Jonas - Eu apenas tive que parar porque meu retrovisor quebrou e eu segurei todo o impacto no braço - Jonas falou isso com orgulho - Daí eu atravessei a rua ainda com o embalo da moto e parei pra ver o estrago, então eu vi o retrovisor quebrado e meu braço começou a doer, daí quando eu percebi, tinha começado a chover e por acaso eu tinha parado embaixo de uma árvore, então eu fiquei lá mesmo esperando a chuva passar pra continuar.
- Esperando a chuva passar? - Maurício perguntou, incrédulo.
- É! - Disse Jonas, já se alterando - Eu tava esperando a chuva passar, porque? Qual o problema? Olha não me enche o saco, eu tive um dia difícil.
- Relaxa - Maurício falou batendo com a palma no ombro dele - Desce outra garrafa aí, mano! - Gritou pro barman, batendo no balcão, isso chamou a atenção de um outro grupo de amigos numa mesa, entre eles estava um sujeito chamado Chico, com quase 2 metros de altura, ele era um brigão do bairro que treinava junto com Jonas a muito tempo atrás, tinha ido para o interior e voltado a pouco tempo.

Chico tinha uma briga antiga com Jonas e na última vez que eles quase se mataram, a policia foi acionada por alguém que estava no bar, Chico quase foi preso mas conseguiu fugir, tinha ido para o interior pra sumir por um tempo e fugir dos policiais que não deixavam ele em paz.

- Quer dizer que no interiorzão lá não tinha ação nenhuma? - perguntou um amigo de Chico - Você nem treinava lá?
- Lá nem tinha academia - Respondeu Chico.
- Nossa, esse lugar deve ser uma bosta - Falou um outro amigo de Chico, na mesa.
- Não fala merda da terra do meu pai não, ouviu? - Chico falou isso quase gritando, se levantando com raiva.
- Opa, calma aí pessoal, - falou outro amigo de Chico - Se você quer ação, vai ter daqui a pouco, já viu quem tá ali no balcão?
- Eeeita.. - Falaram todos na mesa, ao mesmo tempo. Menos Chico, que ficou olhando para Jonas que estava logo ali sentado no balcão.
- Eu já vi esse verme hoje - Afirmou Chico - Eu passei de carro e ele tava parado embaixo duma árvore esperando a chuva passar, parece até que o safado sabia que eu ia passar ali, porque ficou parado bem em frente a delegacia. - Falou Chico, depois deu um gole na cerveja. - Olha, eu juro que eu tinha acabado com ele se não fosse por isso, eu só queria passar por ele na rua, eu de carro e ele de moto, no outro dia vocês iam ver a notícia "motoqueiro morre em acidente de trânsito".

Todo mundo ficou em silêncio por uns segundos, apesar de toda a atração que eles tinham por briga, nenhum deles pensava em matar o Jonas, além do mais o olhar de Chico era assustador, dava pra ver que ele realmente falava sério e a vingança dele não se tratava em dar uma surra ou quebrar a moto dele, ele queria matar o Jonas

- Bem, ainda bem que você não matou ele - Disse um deles, tentando quebrar o clima tenso - Afinal você deixou um pouco de diversão pra gente aqui hoje.

Do outro lado do bar, no balcão, estavam Jonas, Maurício e outro amigo que havia chegado ainda há pouco dizendo que quase a academia inteira iria aparecer por lá, Maurício ficou muito empolgado com a notícia, principalmente porque já havia notado a mesa aonde estavam Chico e mais cinco amigos deles, pra Jonas parecia bem conveniente pra descontar a raiva, uma boa briga de bar com um velho conhecido, mas ele só conseguia pensar no Fusca Azul, depois de beber umas 6 garrafas de cerveja, ele ficava no balcão, querendo reviver o assunto com Maurício, mas sabia que já tinha falado muito sobre aquilo e Maurício só falava sobre o Chico e os amigos dele na outra mesa.

- Hoje vai ter treta! - dizia Maurício, animado - não falei que você tinha que vir, nada acontece por acaso. Hoje vai ter treta!

Nessa hora Jonas olhou para um vidro de um armário que ficava atrás do barman e viu o reflexo da porta do bar que ficava logo atrás dele, no reflexo ele viu claramente um carro azul estacionando, se virou tão rápido que sentiu uma leve tontura, quando percebeu, confirmou, quase não pôde acreditar, o Fusca Azul do acidente tinha estacionado bem ali, a porta se abriu e ele falou:
- Nada acontece por acaso, você tem razão.

Jonas colocou o copo no balcão com tanta força que o trincou, se levantou e foi em direção a porta, Maurício viu o Fusca Azul, Jonas se apressou para chegar até ele antes que ele entrasse no bar, assim ele poderia se sentir mais a vontade sem o perigo do dono do bar mandar eles saírem, a porta do Fusca se abriu e o motorista saiu, Jonas desacelerou o passo quando viu a figura franzina usando óculos. Maurício colocou as mãos na cabeça quase em desespero e pensou: "Mas que merda, coitado desse cara!". Jonas não se desmotivou pelo porte do seu recém-adquirido inimigo, dono do Fusca Azul, ele apenas se decepcionou por ter constatado que não haveria briga nenhuma. Maurício alcançou Jonas e o segurou pelo braço dizendo num esforço inútil pra ele deixar pra lá, enquanto isso a porta do passageiro se abria e descia uma garota com o mesmo porte físico do motorista.


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Depois de um dia tranquilo de trabalho, Otávio saiu com o pessoal do trabalho, ele já tinha pensado em todas as desculpas possiveis para não ir, mas acabou aceitando só porque a Ana havia chamado, na hora de dividir as pessoas entre os carros acabou sobrando apenas a Ana pra ele levar, Otávio ficou feliz e honrado com isso, era a primeira vez que ele estava levando ela no Fusca Azul, - Nada acontece por acaso - Pensou ele, se não tivesse aceitado a idéia de sair ele não teria tido essa oportunidade de ficar tão perto dela. O que Otávio não tinha notado era a conspiração tão óbvia que todos tinham feito pra eles dois irem sozinhos no carro, todo mundo já tinha percebido a atração que os dois tinham um pelo outro, só que os dois eram tão tímidos que se ninguém desse um empurrão nunca aconteceria nada.
No caminho o motorista do outro carro ligou para a Ana e falou que tinha um bar mais a frente e eles tinham decidido que queriam parar lá pra ver como estava o clima.

- Pra mim parece uma droga - Disse a Ana quando Otávio estacionou o Fusca Azul - Olha.. tá cheio de "pitboys" ali.. olha essa música, é horrível.

Otávio achou engraçado e gostou dela mais ainda porque ele também tinha achado o mesmo.

- O que é um "pitboy" - Perguntou Otávio.
- Ah, deixa pra lá - Disse Ana - Ainda bem que eu peguei carona com você, assim a gente vai embora junto e eu não vou ter que esperar todo o pessoal do outro carro cairem de bêbados pra ir embora.

Otávio adorou essa frase: "a gente vai embora junto". Nada acontece por acaso - Pensou.

Otávio, saiu do Fusca e esperou Ana, apesar da notícia que teve de manhã da bactéria de privada que ele tinha na boca, o dia estava a caminho da perfeição, mas quando Ana abriu a porta e saiu do outro lado do Fusca, ele olhou pra ela sorrindo e hesitou por um momento.

- E se eu for beijar ela? - Pensou Otávio, mas logo pensou melhor e achou que isso já era sonho demais, ela nunca beijaria ele assim no primeiro encontro, além do mais a expressão de Ana nesse momento mudava enquanto ela olhava em direção ao bar, ela arregalava os olhos numa expressão assustadora e foi tudo tão rápido que quando ela gritou "cuidado!" Otávio se virou e só viu a estampa da camisa de um homem enorme que ía pra cima dele e o empurrava contra o fusca, Otávio não entendia nada, olhou para o rapaz que encarava ele serrando os dentes, com uma expressão assustadora de raiva, ele achou que era um assalto e por uns segundos ele ficou aliviado porque a Ana já tinha saído do carro e se afastou dando espaço para o indivíduo entrar no carro, mas ele não entrou, ele simplesmente deu um soco violento no retrovisor do fusca que foi arrancado com o impacto e saiu deslizando para dentro do bar. Ana se afastou tremendo, em pânico pegou o celular e discou para a polícia.

Dentro do bar Chico e seus amigos se levantavam em direção a confusão enquanto Maurício tentava segurar Jonas dizendo que não valia a pena, um dos amigos de Chico puxou Maurício para dentro do bar, Jonas se virou para Otávio fechando o punho cheio de sangue que acabava de cortar na hora em que bateu no espelho retrovisor, Ana estava sozinha olhando a cena, ficou paralisada quase chorando na hora que Jonas desferiu um soco bem no rosto de Otávio, Ana viu a cena como se estivesse em câmera lenta, os óculos de Otávio voaram para o alto, as pernas dele dobraram enquanto a cabeça dele rodava para um lado e ficou umas gotas de sangue pairando no ar enquanto Otávio ía pra trás caindo a mais de um metro de distância e ficou lá imóvel.
Derrepente uma pick-up estacionou e desceram quatro pessoas correndo, eram os amigos da academia que tinham acabado de chegar, dois deles seguraram Jonas enquanto os outros dois correram pra dentro do bar onde começava um confronto entre Maurício e os amigos de Chico, Ana chorava em desespero, segurando a cabeça de Otávio no meio da confusão enquanto ele estava estirado no chão, sua boca estava cheia de sangue e ele estava imóvel, uma correria terrível ao redor deles, Ana ignorava tudo com o celular no ouvido chamando uma ambulância, olhava para os lados procurando os outros amigos do trabalho que ainda não tinham chegado. Olhou para o agressor que tinha acabado de fazer aquilo, e ele estava ali no mesmo lugar enquanto um outro homem o segurava, ele nem olhava pra ela, agia como se tivesse feito uma coisa normal, nesse momento de dentro do bar apareceu um homem enorme que desferiu um soco bem no rosto do agressor, o homem que o segurava levou grande susto e acabou soltando ele que caiu mole no chão, Ana vendo tamanha violência se sentiu terrível, mas no fundo se sentiu vingada quando viu o agressor de Otávio no chão.


Maurício, de dentro do bar brigava com um dos amigos de Chico quando subitamente este saiu correndo, Maurício tentou localizar Chico no meio daquela confusão, quando olhou pra porta do bar viu Jonas desacordado sendo chutado por ele, bateu uma certa raiva mas não havia tempo pra agir, já dava pra ver as luzes azuis e vermelhas dos carros de polícia, Maurício tambem saiu correndo e em segundos o bar inteiro estava vazio.

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Jonas abriu os olhos lentamente e se percebeu sentado em uma superficie dura dentro de um carro em movimento, estava meio sonso com a cabeça doendo, ouviu alguém falar:

- Tá vendo? Ele acordou, não falei que não precisava de ambulância?

Outro alguem respondeu rindo:

- É mesmo, oh! É forte que nem um touro.

E os dois caíram em gargalhadas, Jonas olhou ao redor tentando entender a situação e logo descobriu estar dentro de um camburão de uma viatura policial. No banco da frente dois policiais pareciam rir dele.

- A gente te acordou? Desculpa aí, valentão! - Disse um deles rindo.

Chegando na delegacia, Jonas ficou sozinho numa cela pequena, ainda tentando organizar as idéias, em breve o pai dele iria dar um jeito de tirar ele dalí, olhou para o punho e viu o machucado com o sangue coagulado. Lembrou do soco que arrancou o retrovisor, com esse soco ele já tinha se sentido realizado, mas depois que se começa é dificil parar, pensou ele.

De qualquer forma o soco que ele deu na boca do motorista não tinha sido tão forte, ele teria dado um soco no olho se este não estivesse usando óculos, mas na boca tava bom, pensou, pelo menos ele vai se lembrar toda vez que sentir o gosto de ferro.

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Passou-se uma semana e Otávio ainda estava no hospital, pra completar, o dentista que também trabalhava naquele hospital já tinha sido informado sobre o estado de Otávio e fez um exame de sangue descobrindo a existência de uma bactéria e coduzindo um tratamento paralelo.


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Na delegacia, o pai de Jonas foi visitá-lo 3 dias depois do ocorrido, encontrou o filho abatido, anêmico e com olheiras.

- Eu estava viajando, só pude vir hoje - O pai de Jonas falava bruscamente sem muito sentimentalismo.
- Tudo bem, pai. Mas eu quero sair daqui, não aguento mais isso.
- É.. você parece péssimo mesmo. - Disse o pai.
- A comida daqui é uma droga - disse Jonas, desanimado - Eu tô passando mal todos os dias, pai me tira daqui..

Isso não comovia o pai de Jonas, ele nem tocou no assunto mas sabia muito bem que Jonas estava ali porque mereceu. Disse que estava fazendo o que podia e que ele deveria sair em mais uma semana.

Uma semana depois Jonas foi encontrado morto no canto da cela.

Vítima de uma grave infecção sanguínea, a autópsia garantiu que ela havia se infectado antes de ser preso.

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Otávio acordou numa manhã no hospital se sentindo ótimo, até mesmo a infecção de antes parecia não existir mais e ele não se surpreendeu quando o dentista entrou no quarto e sorriu pra ele.

- Otávio, você está novinho em folha! - Disse o dentista, sorridente.
- O que aconteceu? - Perguntou Otávio
- Além do "míssel" que você recebeu na boca? - Perguntou o dentista rindo - Você tinha uma infecção gravíssima Otávio, muita sorte sua termos descoberto há tempo. E da maneira como você evitava ir no meu consultório, eu arrisco dizer que nunca teríamos descobertos se não fosse pelo soco que você levou. Enfim, nada acontece por acaso não é?
- A ana está bem?
- Sim. - disse o dentista - Você foi o único que foi parar no hospital.
- Quanto tempo passou? - Perguntou Otávio.
- Mais de uma semana - Respondeu - Mas não se preocupe, já estão todos cientes no seu trabalho, seus amigos já explicaram tudo para seus superiores.
- Meus amigos.. - pensou Otávio, nunca tinha pensado sobre os colegas do trabalho com essa palavra.
- Você vai receber alta hoje! - disse o dentista.

Quando Otávio abriu a porta para passar pela sala de espera ouviu várias pessoas gritando o nome dele, quando se virou viu Ana correndo até ele, ela o abraçou intensamente beijando-lhe a bochecha, Otávio olhou e logo atrás dela se aproximavam todos do trabalho, todos felizes e comemorando, e mais atrás uma enfermeira desesperada implorando para eles fazerem silêncio.

Todos se aproximaram e ficaram em volta dele, cumprimentando e perguntando se ele estava bem. Um deles falou:

- Nossa, você saiu inteiro depois de acabar com aquele monte de lutadores gigantes?

Otávio ficou rindo, um deles concordou dizendo:
- Caramba, quando a gente chegou tavam só os caras no chão!
- Isso tudo foi pra proteger Ana? Que amor hein? - Disse um deles dando tapas no ombro dele.

Otávio olhou pra Ana e ela ainda estava com o braço direito ao redor do pescoço dele, sorrindo, ficou feliz e pensou que nunca tinha se sentido tão popular.
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4 de fevereiro de 2009

Leap of Faith

..se todas essas sensações, impressões e sentimentos são apenas manifestações cientificas?..



- Você bem sabe que o corpo humano é apenas uma máquina, por mais perfeita que seja, uma obra divina.. de fato. Mas é só isso que é, uma máquina que interpreta sinais e tem reações bem previsíveis na maioria dos casos. E se você não estivesse naquele lugar, naquela situação, naquele dia em que vocês se conheceram?..



- Era nosso destino nos conhecer, nós fomos feitos um pro outro, você não sabe de nada da minha vida, eu devo te dizer que mesmo meses depois nos encontramos em outros lugares.



- Ora, não vem com essa. Sabemos que vocês não teriam se conhecido depois em nenhum desses lugares por iniciativa própria, vocês se conheceram na porta daquele show especificamente porque ela vomitou em você. E você se apaixonou por ela na época por causa do seu estado emotivo naquela época, naquele dia.. quem sabe? Se fosse no dia seguinte talvez fosse tudo diferente e você ficasse puto e mandasse ela pagar um tênis novo..



- Não seria, a gente se encontraria de uma outra forma.



- Você inventou tudo isso, ela está longe agora e você precisa seguir em frente, quando você conhecer outra pessoa você vai ver que eu estou certo, você vai ver que essa pessoa é tão perfeita como qualquer outra que você já conheceu.. Isso é o amor, apenas um fator psicológico..



- Eu preciso tentar, isso é seguir em frente.



- Você só vai perder tempo e dinheiro, pára de sonhar.



- Ah é mesmo, Freud? E se tudo isso foi mesmo inventado e eu estiver mesmo errado sobre a razão da minha existência?

E se essa razão nem mesmo saber da minha existência?

E se depois de todos os planos, idéias e tempo de espera nada disso for o certo?

Não valeria a pena tentar? Não valeria a penar viver por isso?

Eu morreria por isso..

10 de dezembro de 2008

A Humanidade Parou


Quando a humanidade parou, uma das primeiras pessoas a perceber o fato foi Nicholas Marinho da Usina Hidrelétrica de São Jorge, logo nos primeiros dias quando os geradores funcionavam a todo vapor, mas ainda assim não se conseguia extrair energia elétrica funcional de nenhum deles, como engenheiro chefe, Nicholas afirmou que os geradores estavam perfeitos e funcionando, o que ninguém pôde explicar foi porque motivo a energia elétrica não funcionava, a eletricidade passou a ser uma energia que podia ser medida e analisada, mas simplesmente não servia mais pra nada, nada de eletrônico funcionava, inicialmente a noticia foi passada como uma singularidade simples que seria logo resolvida, Nicholas no primeiro dia do apagão geral passou a tarde e quase a noite inteira tentando dar explicações para os vizinhos que o cobravam como se ele fosse o responsável por tudo. As noticias demoraram a chegar já que os meios de comunicação estavam sofrendo graves problemas de funcionamento, mas em poucos dias estava confirmado de que aquilo era um evento mundial e inexplicável.

Naquela primeira noite o pequeno Jorge Marinho com cinco anos de idade esperou pelo seu pai até tarde, estava morrendo de medo do escuro total que chegou junto com a noite e a falta de energia, seu pai chegou e se sentiu feliz por estar com a família, ainda assim teve que fazer uma última explicação rápida para sua esposa sobre o fato que estava ocorrendo, em poucos dias não era preciso dizer mais nada, aquilo tudo já passava a ser o único assunto recorrente na vida de todas as pessoas e já se falava que não havia solução. Nicholas há semanas sem ir ao trabalho já havia perdido as esperanças de qualquer tentativa na usina, olhou para seu filho e pensou como seria se aquela situação não fosse mesmo resolvida, desde aquele dia na usina a humanidade havia parado. Haveria escolas funcionando nos próximos meses? Haveria trabalho, objetivos, expectativas? Será que existiria vida?


Passando se dias e meses a crise se instalou rapidamente em nível mundial. Líderes investiam tudo para solucionar o problema, mas não havia como se fazer pesquisas aprofundadas, nem espalhar informações pelo mundo, nem se fazer cálculos ou testes computadorizados, não havia patrocínio ou financiamento suficiente para colocar um fim a situação. O próprio dinheiro foi perdendo seu valor e em pouco tempo já não se falava em crise econômica, pois não havia um padrão de estabilidade pra que se pudesse comparar e perceber se estava abaixo ou acima da média, após uns anos, quando a maioria dos cientistas e pesquisadores haviam se dado por vencido em restaurar a funcionalidade da energia elétrica, os esforços foram sendo redirecionados em outro tipo de pesquisa: a explicação.

Agora a necessidade da raça humana era saber o porquê de tudo isso, como e quando aquele evento havia começado já estava escrito e relatado nos diários e livros datilografados dos historiadores, mas era o objetivo principal dos intelectuais, explicar aquilo e relatar para as gerações futuras que certamente solucionariam o caso. Enquanto a comunidade cientifica se dividia entre os poucos que buscavam solucionar o problema e os outros que buscavam inventar formas alternativas de energia, mas sem nenhum progresso de nenhuma das partes, a humanidade foi encontrando a solução para se viver através de um retrocesso tecnológico, já que a maioria das coisas mecânicas e analógicas ainda funcionavam, as pessoas do mundo moderno encontraram sentido na vida abrindo mão das tecnologias mais modernas.


Nicholas se mudou para uma cidade no interior e começou a trabalhar numa marcenaria, como fazia seu avô, Jorge foi crescendo e aprendendo junto com seu pai a viver num mundo sem energia elétrica.


Em alguns anos, as novas gerações já nascendo preparadas para viver num mundo mecânico, ouviam maravilhadas as histórias de seus pais e avós sobre computadores, telefones, televisores e aparelhos de alta tecnologia que para eles eram inimagináveis, agora os poucos objetos que não haviam sido reciclados ou jogados fora já não passavam de objetos estranhos ou peças de museus, foram todos excluídos da vida das pessoas para darem lugar a outros objetos, que agora eram a reinvenção de coisas do passado que para a geração anterior eram velharias, mas para a nova geração já eram bens necessários, e assim Nicholas chegando aos 50 anos, via seu filho adulto vivendo bem e trabalhando, lembrava que um dia chegou a pensar que a humanidade estava a ponto de parar, agora nem mesmo podia imaginar como estaria o mundo se o acaso e o inexplicável não tivesse dado um freio no avanço tecnológico, sentia-se feliz, pois ele mesmo e sua esposa estavam um tanto saudável para a idade e tinha certeza que seu filho viveria muito bem e não precisava de toda aquela porcaria eletrônica que ele comprava aos montes quando era mais jovem.

A humanidade estava realmente longe de parar, as pessoas pelas ruas iam trabalhar em profissões que há séculos atrás tinham deixado de existir, o trabalho tinha valor, assim como o dinheiro, a estabilidade econômica, os objetos, a vida, os carros movidos a vapor ou combustível, a comunicação funcionava em meios antiquados, mas era bem funcional, as empresas e fábricas funcionavam em sua maioria até a hora do pôr-do-sol, as lojas, o trabalho, o consumismo. Tudo estava normal e qualquer idéia sobre coisas eletrônicas e super modernas já pareciam historias fantásticas que ninguém mais queria ouvir, e se havia algo que a nova geração possuía de melhor era a vantagem de ver o pôr-do-sol todos os dias quando voltavam do trabalho, e também tinham a carga horária muito menor para a maioria das profissões, mas nem mesmo sabiam que isso era uma vantagem tão grande e de qualquer forma muitos reclamavam que trabalhavam demais e contavam os dias para um feriado ou fim de semana, para a tão estimada reunião com a família, o bate papo com os amigos, o futebol no domingo, a praia e o passeio de carro para os que tinham melhor condição financeira, pois agora os carros passavam a ter um preço muito maior e também um custo absurdo para se manterem funcionando já que o combustível agora era uma das principais fontes de energia, o seu consumo foi aumentando cada vez mais e foi se tornando mais valioso a cada ano, a medida que ia se tornando mais raro e escasso, chegou a uma época em que não se usavam mais carros movidos a combustível, haviam modelos movidos a vapor mas esses eram poucos, a maioria eram de tração animal e o petróleo era salvo para outras necessidades como máquinas de grandes indústrias.


Nicholas faleceu muitos anos antes de poder cogitar alguma idéia sobre a escassez do petróleo, mas Jorge que agora já beirava os 70 anos de idade e tinha 2 filhas, havia herdado de seu pai a mania de cogitar teorias sobre o futuro e começou a pensar sobre como seria a vida se o petróleo realmente acabasse nos próximos 20 anos como diziam as noticias, “em 20 anos já estarei morto”, pensou, mas não podia deixar de pensar que era algo preocupante para sua família e as próximas gerações, não que a humanidade fosse parar, nisso ele não acreditava pois desde pequeno já tinha visto coisa pior acontecer a humanidade, mas sentia um desgosto por todos os seres humanos, parecia ser da natureza humana consumir até os últimos recursos e depois ficar se lamentando em desespero, mas esse parecia ser a única forma de se viver afinal, sem consumir a vida pára.


Os anos foram passando e o inevitável se aproximava cada vez mais rápido, 19 anos depois dos primeiros boatos sobre a extinção do petróleo, aconteceu que os Estados Unidos da América foi declarado como o primeiro país do mundo a esgotar todas as suas reservas de petróleo, mas isso não parecia ser motivo de pânico pois sendo um dos países mais ricos do mundo, os EUA mantiveram relações diplomáticas e importaram o combustível de países vizinhos, o presidente americano declarou que agora o pais precisava de petróleo mais do que nunca pois estava usando todos os recursos em pesquisas para meios alternativos de energia.

Nos meses seguintes, a China declarou o esgotamento de suas reservas quando os Estados Unidos pediu auxilio nas pesquisas. A extinção do petróleo já era uma realidade e vários países foram esgotando suas reservas um a um. Os países com mais petróleos eram na maioria países do terceiro mundo, e a sorte de possuir mais reservas naturais não se tratava de poder econômico, raça predominante ou posição geográfica, com a crise do petróleo muitos políticos viram na situação a oportunidade de fazer prosperar seus países através da negociação e exportação para os países mais ricos, mas em tempos de crise econômica gerada pela escassez do petróleo nem todos os países estavam dispostos a negociar.

Jorge Marinho estava saudável aos 89 anos de idade, longevidade adquirida graças à vida tranqüila no interior e a reduzida carga de trabalho, quando ouviu as noticias sobre a guerra que havia começado no outro lado do mundo, sentiu um aperto no coração, há uns 20 anos que se ouvia falar muito sobre o esgotamento do petróleo, muito se falou e muito se propôs sobre medidas alternativas e meios de economizar, para se viver melhor e salvar o mundo para as futuras gerações, mas agora o que se ouvia falar era sobre uma crise mundial, o racionamento de combustível havia interferido diretamente na vida das pessoas e já fazia algum tempo que o governo havia declarado estado de emergência nas grandes cidades.

A guerra começou silenciosa, no inicio era uma revolta civil, um conflito racial entre pessoas de outros países que haviam se mudado devido à crise do petróleo, depois um ataque em resposta a revolta civil, depois uma invasão justificada como resposta ao ataque e meses depois era guerra declarada. Demorou quase um ano para as pessoas se darem conta de que era a terceira guerra mundial. Jorge Marinho, ele mesmo só se deu conta quando os veículos militares atingiram o asfalto até mesmo na pequena cidade onde ele morava, nunca tinha visto tantos motores ligados ao mesmo tempo, afinal o petróleo não havia acabado por completo, na verdade o fato de se ter pouco causou a guerra e em seguida o pouco que sobrou foi usado nela, enfim, a humanidade não parou, em momento algum.

22 de setembro de 2008

Joana salvou a minha vida




Joana salvou a minha vida”. Por uns minutos era só isso que Joe conseguia pensar, essa frase já estava famosa no círculo de amizades, todos comentavam que Joana e Joe haviam sido feitos um pro outro. Como será daqui pra frente? – Joe pensou, olhou pra todos os amigos chorando no sofá da sala de espera do hospital e se pôs a chorar discretamente e calado, não só por Joana, mas por quatro amigos que haviam morrido no acidente, Joe era relativamente novo naquele círculo de amizades, algumas pessoas do grupo de amigos que não conheciam Joe muito bem olhavam pra ele chorando e se perguntavam se afinal ele gostava mesmo dela, não faziam nem dois meses que eles se conheciam e já estavam saindo juntos. Joe queria sair logo de lá, levantou o olhar pra o grupo para dizer que estava indo pra casa, e seu olhar se deparou com o de Larissa, que o encarava, apesar dos olhos cheios de lágrimas ainda se percebia um pouco de ódio no olhar de Larissa, Joe notou a indignação e baixou a cabeça novamente, Larissa era a irmã mais velha de Henrique que havia embarcado no lugar de Joe poucas horas antes do acidente, Guilherme (que era o dono do carro e estava organizando a viagem) havia ligado para Joe para confirmar se ele iria mesmo, Joe disse que não iria mais, então Guilherme chamou Henrique já que iria sobrar um lugar no carro. Joe agora, vendo o olhar de ódio que Larissa depositava sobre ele, pensou que de alguma forma ela o considerava culpado pela morte de Henrique. Isso é estúpido, sendo assim todos estariam mais felizes se eu tivesse morrido? – Se perguntou Joe, em meio a um monte de pensamentos confusos, logo imaginou que a suposição era verdadeira, ele conhecera aquelas pessoas a pouquíssimo tempo e parecia lógico que elas gostavam mais de Henrique do que dele. Se levantou de repente e falou sem olhar ninguém nos olhos:

- Pessoal! Eu vou indo, não agüento mais ficar aqui, preciso dar uma volta.Larissa desviou o olhar e não falou nada, Joe olhou para o restante dos presentes, alguns responderam balançando a cabeça, uma garota se levantou também, era o que Joe temia, Juliana se ofereceu para acompanhar ele.

Saindo do hospital, os dois começaram a andar pela praça que ficava ao redor do hospital, Joe não sentiu vontade de falar nada, ele queria mesmo era ir pra casa. Juliana falou repentinamente:

- Eu sou a irmã de Joana... Eu era... – Disse Juliana com a voz carregada de tristeza.
- Sim, eu vi você em fotos que a Joana me mostrou.
- Você gostava dela não é mesmo? – Juliana sempre ia direto ao ponto.

Joe ficou pensativo. Lembrou de toda a curta história desde que conhecera Joana numa festa da faculdade há dois meses, Joe sempre foi calado e pouco comunicativo, naquela festa ele só conhecia (ainda que há pouco tempo) o Guilherme que era o dono da casa aonde havia acontecido a festa, naquela noite Joe estava entediado pois seu único conhecido não parava um só minuto já que ele era o mais popular da festa, Joe se sentou no balcão improvisado e ficou observando o movimento da festa, quando sentiu a lata gelada de cerveja encostando no seu braço, Joe se virou e ali estava uma bela garota oferecendo a bebida pra ele, ela falou perto do seu ouvido:


- Você está muito desanimado, não vai dançar?
- Não.. – Disse Joe meio sem graça – Eu não danço.
- Ah, eu também não – Respondeu ela, se sentando.
- Eu odeio essas músicas.
- Ah eu também – Respondeu a garota, se aproximando.
- Meu nome é Joana, e o seu?
- Joe! – Ele respondeu.
- Nossa! Temos muito em comum! – Disse Joana sorrindo ainda mais.

Joe sorriu abrindo a lata de cerveja. Uma imagem de um velho amigo de escola que estudava antigamente com ele lhe veio a cabeça, sorrindo com a barba mal-feita e dizendo:
- Essa tá querendo! Deixa de ser otário, ela quer dar pra você. Na época de escola, no terceiro ano, tinha esse amigo do Joe, seu nome era João e ele se dizia o grande experiente com garotas, era como se o dever dele fosse alertar Joe sobre as garotas que queriam ficar com ele, mas Joe era tímido demais pra dar o primeiro passo. E assim foi, mesmo agora, na faculdade.

O silêncio pairou por segundos enquanto Joe tomava grandes goles de cerveja, até a música havia parado. Joana olhava pra ele sorrindo, esperando uma resposta apropriada depois da última afirmação, mas Joe continuava descendo a cerveja, dava até pra se ouvir os goles secos de Joe.


- Você não acha? – Joana reforçou a pergunta – Joana e Joe, são nomes parecidos.
Joe baixou a latinha de cerveja e pelo peso da lata achou que tinha bebido a lata inteira.
- É mesmo, e nós dois odiamos essa droga de música, ainda bem que parou – Disse ele, rindo.Joana riu também e ficou olhando para ele.
- Eu vou ver o que aconteceu – Disse Joana se levantando e indo em direção a sala onde estava o som.
- Volta depois! – Disse Joe, dando o que ele considerava o primeiro passo. Ficou sorrindo e depois olhou para a latinha na mão, ainda tinha metade, virou de uma vez. Logo Guilherme surgiu fazendo insinuações dizendo que eles dois iriam ficar juntos na festa, Joe já estava terminando a quarta lata de cerveja quando Joana voltou e se sentou ao lado dele, nesse momento a cerveja consumida já dava os primeiros sinais no organismo de Joe que logo disse que iria ao banheiro, Joana disse que queria ir também, Joe ainda aproveitando os efeitos do álcool conseguiu fazer a conversa fluir até o ato final. João teria ficado orgulhoso – Pensou Joe.
Depois dessa festa Joe sentiu mais facilidade em lidar com os amigos da faculdade, ele não era mais o novato que não falava nada e que ninguém conhecia, ele era o Joe que tinha ficado com Joana na festa do Guilherme, no fim de semana seguinte, chamaram ele para um bar depois da faculdade e ao chegar lá, Joe encontrou Joana novamente e quando todos notaram os dois já estavam se beijando novamente, depois dessa noite todos já diziam que a relação estava mais séria do que nunca, passou-se mais de um mês nessa relação e Joe já estava mais enturmado do que nunca naquele circulo de amizades e já conhecia uma porção de pessoas na faculdade, um dia após uma longa conversa (o que era bem raro, pois Joe não conversava muito), Joana perguntou a Joe se eles estavam namorando, Joe ficou atônito com a pergunta e disse que não via muita diferença entre declarar isso ou não, Joana insistiu que era importante saber, Joe no inicio não via tanta diferença assim, mas naquele momento começou a se perguntar se algo mudaria com isso. Então ele simplesmente falou que não sabia.

- Você me ama? – Perguntou ela, com seriedade. Joe pensou por uns instantes, se lembrou da noite em que se conheceram - Será que era pra ser tão sério assim? Joe pensou e não respondeu a pergunta, pelo menos não tão diretamente. Através de rodeios e lembranças de fatos durante o mês em que se encontravam, Joe falou simplesmente que gostava dela e que se não fosse por ela, ele teria bebido até vomitar naquela festa e que no dia seguinte teria uma ressaca terrível e que provavelmente não conheceria nenhuma das pessoas que conhece hoje.

- Resumindo, acho que você salvou a minha vida! – concluiu Joe.

O que Joe não pode perceber ou pelo menos não se dera conta na hora, é que essa frase foi a única coisa que Joana entendeu em toda a conversa, ela iniciou a conversa para ouvir o então sonhado “eu te amo”, mas Joe tentando evitar uma declaração que tornaria tudo mais sério no ponto de vista dela acabou falando algo ainda mais intenso e dalí pra frente Joana e Joe que foram feitos um para o outro se amavam e Joe simplesmente não existiria se não fosse por Joana, pelo menos era isso que todos diziam e Joana a essa altura já pensava em sair de casa para ir morar com ele.
É incrível como as coisas são – Pensou Joe, uma semana depois dessa conversa, estava ficando na faculdade até tarde estudando no laboratório, ele dizia que tinha que estudar mais porque sua média de aprendizado estava caindo, mas a verdade é que ele estava evitando Joana porque depois daquela conversa a relação parecia estar ficando séria demais, Joana ligava pra ele constantemente e queria vê-lo todos os dias, até que numa certa quarta-feira, Joana ligou e disse que já faziam dois meses que eles estavam namorando, Joe nem mesmo se dera conta, se perguntassem ele diria que nem sabia que estava namorando, muito menos que faziam dois meses, Joana nessa ocasião convidou Joe para almoçar na casa dela no próximo sábado, nessa hora Joe teve não teve mais dúvidas quanto a seriedade que Joana via na relação, ele tinha que fugir desse almoço de alguma forma.Numa dessas noites estudando até tarde no laboratório da faculdade, uma garota estava claramente flertando com Joe. – Eu devo estar ficando louco, ela só está olhando pra mim, é só isso – Pensou. O telefone celular tocou e era Joana, Joe olhou e não atendeu colocando de volta na bolsa. Voltou a digitar um exercício no computador, a garota passou por ele e disse:- Boa noite, Joe, eu vou indo. Você estuda demais.
“Essa tá querendo! Pega ela otário!” A imagem de João subitamente veio a cabeça de Joe.Também se lembrou outra frase clássica de João: “Quando o cara tá namorando, chove mulher querendo dar pra ele”.
O telefone continuou a tocar de tempo em tempo, quando Joe foi saindo olhou o telefone e viu que uma das chamadas eram do celular de Guilherme, então retornou a ligação.

- Joe! Vamos viajar esse fim de semana? – Gritou Guilherme, eufórico no outro da linha.
- Viajar? Eu to sem dinheiro!
- Ah, a gente divide a gasolina, vai ficar barato! - insistiu Guilherme.
- Ah, tá bom, eu vou!
- É isso aí! Sábado de manhã eu passo na sua casa!

Na pressa, Joe nem se lembrou de perguntar quem iria, mas já dava pra imaginar, Guilherme com sua namorada inseparável e Henrique, ele seria a quarta pessoa no carro. Pra Joe aquela seria uma ótima oportunidade pra esquecer um pouco da faculdade, trabalho, estudos e o que era melhor: escapar do almoço com a família de Joana.
Na manhã do Sábado Joe acordou cedo e foi no mercado que ficava na esquina de casa pra comprar coisas para a viagem e na saída do mercado encontrou Henrique, que olhou para as garrafas na mão dele e perguntou:

- Opa! Vai ter festa?
- Ora, eu achei que Guilherme tinha te ligado, você não vai viajar com a gente?
- Ah sim! – Disse Henrique
- Ele me avisou, mas o carro já esta lotado, eu vou mais tarde se conseguir carona com alguém.

Joe voltou pra casa curioso, quem seria a outra pessoa no carro?. Ligou para Guilherme que já atendeu dizendo:

- Joe! Tudo certo? Já falei com a Joana, ela já está pronta! Estou passando por aí daqui a pouco.

Mas que merda! - Pensou Joe, quase falou isso em voz alta, será possível que todos estavam dando uma de cupido e conspirando pra que ele ficasse com Joana o tempo inteiro em tudo que fosse fazer?

- Ah, Guilherme – Falou Joe, meio sem jeito. – Eu não vou mais, mudei de idéia! Eu vou visitar a minha mãe.
- Ah, não acredito cara! Mas porquê? A Joana vai também.

Joe já começava a perder a paciência e finalizou logo a conversa. Ele não queria vê-la, ela teria que perceber isso de uma forma ou de outra, Joe pegou a bebida que havia comprado e guardou na geladeira, depois desligou a tomada do telefone e ficou em casa vendo televisão até tarde, no noticiário da noite veio a noticia sobre o acidente na rodovia principal, quando Joe viu o carro todo amassado no meio das árvores depois do acostamento, ele sentiu um calafrio pelo corpo e soltou o copo que se espatifou no chão, ficou com os olhos fixos na tela da TV imaginando que era só um carro parecido, o repórter informou que o acidente tinha acontecido pela manhã e que segundo a perícia, o carro estava com os freios debilitados e perdeu o controle na curva devido também a um excesso de velocidade, o repórter anunciou o nome das quatro vitimas envolvida que já haviam sido identificadas, Joe sentiu um embrulho no estômago e correu até o banheiro, se ajoelhou com a cabeça quase dentro da privada e vomitou tudo que havia comido e bebido durante o dia, depois se recompôs e olhou no espelho, estava amarelo e com gotas de suor pelo rosto, por uns minutos ficou se olhando no espelho. O telefone tocou e Joe atendeu, era do hospital.

- Você gostava dela não é mesmo? – Juliana perguntou indo direto ao ponto.

Mas Joe ficou pensativo e não respondeu, Juliana falou:

- Eu imagino como você se sente, apesar do pouco tempo que vocês se conheciam era como se vocês já estivessem super envolvidos, ela só falava de você o tempo todo. Aliás, todos falavam de vocês.

- É.. – Disse Joe – Eu gostava dela, ela salvou a minha vida.

8 de janeiro de 2007

Câmera Lenta




Então, não se conhece limites, tão importante se torna a vida, sente-se a vontade de viver até os 200 anos a sensibilidade aumenta, percebe-se a beleza e os detalhes de cada coisa, dorme-se bem, tem bons sonhos acorda disposto, todos parecem interessantes, é assim a visão do mundo, pelos olhos de um apaixonado, é baseando-se nessas sensações sem sentidos e melancólicas que toma forma a história do coração partido de Tom.

Tom poderia ter feito muitas coisas diferentes no dia 15 de janeiro de 2007, seria um dia perfeito talvez, ou quem sabe não, a seqüência de fatos já se encaminhava para tudo isso, talvez fosse a necessidade do amor se mostrar, na hora em que passou pela porta daquele bar, Tom não era nenhum bêbado pra ser parado por um bar logo de manhã, no entanto, o jovem Tom teoricamente não deveria estar ali naquela hora, mas ao mesmo tempo era a hora e lugar perfeitos para duas almas gêmeas se encontrarem, corações entrariam em chamas, momentos inesquecíveis e todo tipo de coisa melosa pra se dizer num romance em uma hora dessas, mas não serei tão mal com vocês caros leitores, o titulo do livro, ele mesmo não engana, sabemos que por mais feliz que o momento possa parecer, a seqüência de fatos nos levará para uma desgraça que passará por drogas, armas, roubos, violência, e claro: corações partidos..

Ninguém dava bom dia, nem sorria, a Senhora Prestativa fingia varrer a calçada pra impressionar o chefe, como fazia todas as manhãs, um clima meio chato hoje no ambiente, não era pelos montes de lixo e vinho que ninguém limpou, "a senhora prestativa devia estar varrendo isso, cadê o Tom pra varrer essa merda?” Esse era o chefe fazendo uma pergunta retórica, Havia despedido o Tom a alguns segundos,quase dava pra ver ele saindo pela porta, andando pela rua, precisamente no meio dela, não se tratava de suicídio, como a fama de Tom poderia sugerir, esse era o exato momento que tom atravessava a rua e ía andando até chegar em um outro bar, não, Tom não estava prestes a encher a cara para afogar as mágoas, pois Tom jamais bebia por desgosto, mas aquele bar ele nunca havia notado, talvez porque nunca tinha voltado pra casa a pé naquela hora, mas isso não mudava o fato de que o bar estava lá e Tom parou diante da porta aberta olhando para a placa da frente estava escrito “Bar Circular”, um nome idiota, eu sei, mas eu devo contar a historia como ela é, Tom entrou no bar olhando ao redor e foi até o balcão: " me dá um café, porra!" A atendente se virou e nesse momento os pombos esvoaçaram do telhado e ganharam o céu azul, as flores de verão se abriram mostrando um vermelho vivo, para a multidão de pedestres que cruzavam a calçada e nem as notavam, tudo desmoronou e se reconstruiu mais perfeito na vida de Tom, seu coração batia com objetivos maiores e milhões de imagens de uma vida perfeita ainda para acontecer passaram diante de seus olhos, tudo acontecia em câmera lenta, como num sonho, e era mesmo em câmera lenta, dava pra notar no gato da casa da frente que pulava de um muro para o chão para agarrar um pombo filhote, era mesmo um dia surreal, aonde já se viu um pombo filhote? e ainda na calçada a mercê de um gato que pula em câmera lenta...
Talvez eu não esteja me expressando bem, pois esse é o momento cume da história, aí que começa nossa linda história de roubo, morte, violência e claro.. corações partidos...milhões deles.
Mas por enquanto não se preocupe, você só precisa saber alguns detalhes sobre nosso... “herói”. Tom tinha uma mente muito ativa e criativa, e também era muito observador, gostava de lembrar-se dos sonhos e passou bastante tempo estudando técnicas para não esquecê-los, uma delas era acordar assim que sonhava, sair da cama, pensar, anotar palavras chaves, parece mesmo uma obsessão de alguém perturbado com tendências suicidas, odiava quando via o sonho passar alienadamente e ele não percebia que era um sonho, isso era muito raro de acontecer, pois quase todos os sonhos de Tom eram lúcidos e ele podia fazer o que quisesse, não pense você que ele fazia coisas de caráter imoral e sexual, isso ele fez bastante nos tempos de criança hoje em dia ele encarava o sonho como sendo mais importante do que sua vida, não há dúvida de que era mais interessante. Mas Tom não era só o cara que varria o bar Leste, na verdade era sim, ele não passava disso, mas quando tom se libertava do emprego, ele assumia uma forma diferente, ia pra casa não mais pensando nos problemas, e as idéias começavam a rodar na sua cabeça como se fosse uma máquina pronta par fabricar arte, era um hobbysta em muitas coisas, ele gostava de pintar influenciado pelos sonhos que tanto prestava atenção, as vezes ele escrevia histórias inteiras baseadas em sonhos, dava a idéia de que ele era um maníaco obcecado pelo mundo dos sonhos, de fato, não se sabe, o contrário ainda não foi provado. Alguns dos livros e histórias ele doava para um amigo que conseguia imprimi-los e vender no trem, Tom não cobrava nada por isso, gostava de escrever e ajudava o amigo.

Sobre a atenção aos detalhes que Tom possuía, era bem peculiar, por exemplo, era o único que notava a sujeira nas garrafas velhas do bar, ou talvez os outros tivessem preguiça de notar algo tão trabalhoso. Assim Tom viu uma teia de aranha, naquela garrafa secular que estava lá desde tempos remotos quando os dinossauros ainda caminhavam sobre a terra, Tom puxou o banquinho, “ Vou limpar.. É..”
Ele subia com dificuldade e no teto havia uma corrente onde ele se apoiou e se puxou pra cima, parecia uma cena de suicídio á moda antiga, isso reforçava a imagem de louco obcecado pela morte, no entanto Tom estava apenas tentando alcançar a garrafa velha e o inseto que habitava ali,uma mão segurava a corrente e se pintava de pó cinza, a outra, a que não podia escrever segurava o pano e batia o pó quase inutilmente, foi numa dessas batidas que Tom sentiu a cadeira balançar e sua mão que não escreve acertou com força a aranha e a garrafa, de repente soltou a corrente, a cadeira deu um pulo de lado e voltou, depois balançou de novo e dessa vez deitou no chão, depois disso só se via o pano descendo com o grande objeto que descia de lado, o pescoço bateu na quina do balcão, e de súbito jorrou o tão conhecido líquido vermelho, escuro, quase negro, se espalhou pelo chão do bar, penetrando nas frestas do piso de tacos, irrecuperável perda, foi o que o chefe pensou ao contemplar a cena dramática pintada de vermelho e decorada com cacos de vidro, uma vida de 30 anos jogada fora, que tragédia, todos ficaram boquiabertos, inclusive Tom que não sofreu nenhum arranhão, ao invés disso pulou da cadeira e caiu de pé, mas não a tempo de segurar a garrafa, essa que caiu na quina do balcão e quebrou o "pescoço", o chão pintado de vermelho soltava o cheiro de vinho de marca, por pouco o sangue de Tom não se juntou ao vinho, o chefe quase se pôs a lamber o chão pra não desperdiçar tamanha relíquia, a frase saiu quase automática:
- Está despedido!!

Foi atravessando a rua e notou um papel quase voando ao vento, se abaixou e abriu, era uma espécie de bilhete, nele estava escrito, "olhe pra sua direita", ao olhar só viu os faróis se aproximando, "que filme engraçado.. é.." Tom deu um pause no filme e desligou o monitor, ainda pensava na garota do bar, tão parecida com ele, será que ela também quebraria uma garrafa? Olhou o relógio, 12:34, sua hora preferida, ele sempre olhava para o relógio quando dava essa hora, pensou em dar uma volta, apenas desculpa para ir até o bar, estava despedido não fazia sentido ficar em casa mofando, iría ao bar, veria ela de novo, falaria com ela, chamaria pra sair, jantar dar uma volta no parque, depois a pediria em namoro, ela aceitaria, faria planos, noivado, visualizava as imagens como se fosse passado, ele tirava do bolso a caixinha aveludada com a aliança e ela diria "sim.. aceito..é.." com aquela linda voz que ele ainda não tinha ouvido, casaria num campo florido, odiava igreja, ela também odiava, imaginava ele, passariam a lua de mel na Europa e beberiam vinho no sul da França numa tarde de céu encoberto e sol ameno, teriam 4 filhos, envelheceriam juntos e seriam felizes para sempre, "é.. então vou dar o primeiro passo.."
O plano de vida já estava arquitetado para Tom, e com certeza também para a garota do bar, Tom sabia que ela pensava igual a ele então certamente não precisava avisar a ela. Mas que surpresas guarda o destino, em meio a todos esses devaneios tom descia a rua mergulhado nesses pensamentos, não podia se lembrar do rosto dela, é sempre assim para a visão de alguém apaixonado, apenas se viaja no pensamento e se esquece que a qualquer momento a morte e a desgraça bate a porta destruindo tudo de bom que existe e deixando os corações partidos sangrarem pelas esquinas, foi numa dessas esquinas que Tom distraído, atravessou a rua com pressa, não notou o caminhão que ultrapassava pela contramão, dizem que ele não sentiu dor, como podem ter certeza eu não sei ao certo, aposto que nenhum deles já foi atropelado por um caminhão de lixo da Emlurb em alguma tarde de verão, a cabeça esmagada de tom espirrou restos de massa cinzenta pela rua e foi parar alguns pedaços na porta do bar onde habitava seus sonhos.. e assim acaba a balada do coração partido..

Teria sido assim, mas não passava de um desses sonhos que Tom não tem consciência, e ainda por cima ele teve que correr, e ele odeia correr nos sonhos, olhou pro relógio eram 12:34, sua hora preferida, saiu pra dar uma volta e pensar em como pagaria o aluguel.
Andando pela rua foi imaginando aonde seria possível vender um rim, ou se seria uma boa idéia roubar o cabelo de algum jovem rockeiro e vender para algum salão de beleza, talvez entrasse para o tráfico de drogas ou prostituição, qualquer opção simples e fácil que qualquer um faria numa hora dessas, chegou na esquina do sonho mas dessa vez não foi mutilado pelas rodas do caminhão, ao invés disso atravessou e entrou no bar.

O bar estava vazio, com exceção é claro dos clientes, atendentes e pessoas sentadas na mesa, Tom imaginou que a garota também havia sido despedida por quebrar uma garrafa e agora estava dando uma volta ou estava em casa dormindo e sonhando com a morte.

Voltou para a casa, a chegada era tensa, sempre havia o risco de encontrar o dono da casa cobrando o aluguel, não foi dessa vez, deixou as janelas fechadas e a musica baixa, " assim o seu barriga vai achar que eu estou trabalhando", preocupação inútil, ele poderia tocar a campanhia quando quisesse cobrar.

Spunk tentava alcançar uma bola vermelha debaixo da escada, sem conseguir tentou entrar lá de baixo, se sujando todo de lodo..
-Spunk! sai já daí!

O gato saiu correndo pra dentro de casa com as costas esverdeadas, Alice abriu o portão e foi entrando dentro de casa com a decepção no rosto, "despedida?", mal podia acreditar, nem mesmo sabia porque, não ia pensar nisso agora, foi pra dentro ainda com ódio daquele sujeito mal educado, teria sido talvez por isso a demissão, o sujeito agiu mal educadamente, ela fingiu não ouvir e se virou limpando os copos sem olhar a cara dele, o sujeito ficou paralisado com aquela cara de tonto, devia ser retardado, logo o seu Joércio ficou falando: "Alice, porra! não tá ouvindo o cliente?". Daí ela fingiu não ouvir os palavrões que ele disse e logo pôs o café, mas o rapaz tava paralisado com aquela cara de tonto... "Moço.. moço.. ela falou: moço! o café.. o seu café!"
A mesma cara de tonto e boca aberta, seu Joércio veio encaixando o pano no avental e falando: "ahh o senhor me desculpe viu.. toma o seu café.. com açúcar ou adoçante?".. Alice saiu de perto e o moço ficou olhando pra ela, levou as mãos ao café devagar e depois olhou pra o Joércio, pegando o café e levando até a boca.
Isso não parecia motivo suficiente pra demissão, mas Alice já tava estressada com aquele trabalho, então não teve outra, quebrou o pau com o Joércio.
Agora Alice chegava em casa numa hora incomum e a louça estava lá entulhada, Spunk em cima da pia tentava beber água das louças, ela nem olhou pra louça, queria mesmo era dormir, deitou-se na cama, o sono não vinha, decidido tomar um banho quente, foi para o banheiro e decidiu que hoje ela iría usar a banheira, algo incomum, a ultima vez foi a anos e Alice se sentiu estranhamente se afogando naquela banheira, desde então ela comprou um patinho de borracha á mando da sua mãe, "é pra isso que serve.. é.." Alice pensou olhando para a figura amarela boiando na água rasa, pensou em ouvir música enquanto tomava banho e fumava na banheira, pos o rádio por perto e mergulhou, a banheira já estava cheia, acendeu o cigarro e logo ouviu um miado, era o spunk entrando no banheiro, começou a subir pelas coisas e derrubava a maioria delas, Alice nem abriu os olhos, spunk decidiu brincar com o rádio que fazia um chiado estranho quando ele se aproximava, agora nessa parte você já deve estar imaginando o pior, e se imaginou parabéns, pois esse é o tipo de acidente doméstico que pode acontecer em uma história de desventuras como essa, o rádio bateu na quina da banheira antes, e se abriu, expondo os fios faiscantes que ao mergulharem na água fizeram da cena um show pirotécnico, nem spunk se salvou do ataque do rádio, o pato de borracha, ele sim, caiu fora da banheira assim que o rádio bateu na superfície, e assim ficou sendo o único sobrevivente, Alice nem gerou, morreu eletrocutada rapidamente, seu rosto distorcido deu um ultimo suspiro, o mais engraçado foi o som de um telefone gigante que estava dentro do banheiro e tocava ensurdecedoramente, uma palavra difícil, mas aconteceu... com esse som ela acordou em um pulo, estava suando e já estava escurecendo, spunk sobre a cama miando, ela olhou ao redor e lembrou de tudo que aconteceu, trabalhar, cara louco, demissão, seu Joércio e o pato de borracha.
Atendeu o telefone:
- Alô?.. sim sou eu.. é.. ahh.. tudo bem não tem problema, mas hoje eu não vou mais tá bom? amanhã eu apareço aí... é, obrigada.."

"O Nome é Alice, desculpe por ontem, ela já foi demitida..."
A partir daquela visita ao tal "bar circular" a vida de Tom mudou muito, agora ele só conseguia pintar quadros com mulheres e sua mente se recusava a pensar em outra coisa, a terra dos sonhos só tinha uma mulher, sem rosto, mas era ela, a garota do bar que ele nem conhecia mas que deveria encontrar, ele foi para o bar conversar com Joércio e saiu de lá com o pulso doendo, mas isso não era nada perto da dor que Joércio sentia, foi espancado pelo Tom, quanta violência, ele era mesmo louco, Joércio até resolveu ligar para Alice e readmiti-la, foi difícil levantar, o bar estava vazio mesmo e ele mandou Henrique baixar as portas, "Sim, senhor.." Henrique que chegava naquela hora e não vira o incidente pouco entendeu da situação, mas cumpriu a ordem. Joércio pegou o telefone que o Henrique trouxe e começou a discar, um dos seus dedos estavam quebrados, seu rim pulsava numa dor constante e sua urina saiu com sangue durante semanas, depois de ligar pra Alice ele ligou para uma ambulância.

Já era de noite e ameaçava chover quando Suzy (uma pedestre que passava pelo local) viu um jovem viciado em crack revirar lixeiras á procura de alguma lata de refrigerante para alimentar seu vício, ela acelerou o passo, ele gritava: "ONDE ESTÁÁÁÁ???!!!!"
Suzy sentiu um aperto no coração e saiu correndo e pegou o primeiro ônibus que chegava na esquina, sentou-se ao lado de uma garota, respirava fundo, a garota perguntou:

- Está tudo bem?"
- Não, levei um susto agora, um cara noião de pedra tava revirando os lixos ali no bar!
- Nossa é o bar aonde eu trabalho, quem era ?

Suzy olhou ao redor e viu o rapaz ainda ali perto da esquina da frente, o ônibus dava a partida muito lenta e pegava pessoas que chegavam, por isso ainda deu tempo de ver o jovem se virando para o ônibus, foi uma cena assustadora, o rapaz olhou para as duas em desespero e começou a gritar coisas incompreensíveis, batia na janela, Suzy percebeu que a mão do rapaz estava cortada e sujava o vidro de sangue, berrava e praguejava: "páa. ra! o oooo.. ni buuuss.."

Suzy gritou: "Motorista anda logo, tem um marginal lá fora!"
Provavelmente não pelo seu pedido mas o ônibus arrancou com velocidade deixando pra trás o bandido que ainda tentava correr em vão atrás do ônibus."

Tom acordou na manhã seguinte a demissão, confuso sonhou com a demissão, mas achou melhor não pintar isso, foi até a cozinha, escovou os dentes na pia, gostava de escovar os dentes na pia da cozinha por causa da janela, era bem melhor que o espelho, cuspia sobre a louça suja, isso era uma vantagem de se morar sozinho. Andou o dia inteiro procurando emprego, ao voltar pra casa no fim da tarde estava lotado de papéis e cartões de propostas e mais propostas de empregos, as oportunidades eram diversas, de gerente de empresa a estrela de Hollywood, teria sido ótimo se tivesse sido assim, ao invés disso Tom voltava pra casa cansado e derrotado, nenhuma chance de emprego, como imaginava...
Tom tomou um banho e saiu, considerava que já havia trabalhado o dia inteiro, agora era hora de fazer outras coisas, mas dessa vez ele não pintaria nada, ele iría atrás da sua obsessão, ela foi demitida mas talvez ele encontre alguma pista, vai tentar chegar sem ver o Joércio e perguntar pra outra pessoa sobre Alice.
Enquanto isso Joércio, não longe dali preparava sua vingança, Joércio era um homem estratégico, dizia que a vingança era um prato melhor servido frio, sábias palavras, ou talvez não tão sábias, talvez ele tenha roubado de algum filme ou livro, de qualquer forma ele ia por essa filosofia á prova, deixou a espingarda de cano serrado escondida sob um pano no colo, na cadeira de rodas não era difícil esconder a arma, uma arma de bandido, dessas que tem nos videogames e se chamam "shotgun", Nem Deus sabe aonde Joércio conseguira esse artefato, também ninguém sabe como ele aprendeu a atirar, ou melhor, se ele saberia atirar com aquela coisa, de qualquer forma já estava tudo pronto, sentia que o cara louco ia voltar, esperou até agora ao entardecer, Alice por sua vez achou ótimo o louco não dar as caras por ali, ela foi saindo pois já estava na hora, "Boa noite, seu Joércio.. e vê se vai pra casa.. desiste dessa idéia.."

Tom foi se aproximando e vendo as portas baixando se apressou, andou rápido, o garoto que baixava as portas quase morreu de susto e gritou: " Lá vem o louco! aquele louco de novo, ele tá correndo pra cá". Seu Joércio com reflexos de gato sacou a arma por debaixo dos panos e mirou com precisão, precisão total, mirou no rosto de Tom, tanta precisão a menos de um metro com uma espingarda cano serrado.." não vai sobrar nada.."

Tamanha precisão e facilidade no tiro não foram suficiente para corrigir a mão torta e a miopia absurda de seu Joércio.. errou tão feio que dava vergonha para 3 gerações da sua família, uma única fagulha atingiu a mão de Tom e arranhou, ele logo mudou o caminho, e correu por um beco do lado do bar, saiu na outra rua e se escondeu, o tiro o fez derrubar o livro que segurava, o mais importante de tudo, ele esperou até acalmar um pouco, não demorou nem meia hora, os vizinhos levaram o Joércio embora antes que ele se matasse ou matasse algum filhote de pombo com toda aquela pontaria e talento para o tiro.

Tom logo voltou pelos arredores do bar e começou a revirar tudo, até o lixo, não encontrava.. isso era terrível, ele começou a gritar: "ONDE ESTÁÁÁÁ???!!!, não encontrou, foi andando pelos cantos das paredes e muros e logo viu que já estava longe demais, perto do ponto de ônibus, então viu o ônibus saindo devagar, e na janela estava a visão mais linda que ele já conheceu, era ela, Alice, estava ali, tão perto, mas se distanciando, melhor correr.. Ficou batendo na janela do ônibus e gritando para que o motorista parasse, mas não adiantou nada, logo já estava longe demais, começou a sentir a dor na mão e notou que estava sangrando, foi pra casa respirando fundo.

Alice sentada na janela ainda olhava assustada, pois sabia muito bem quem era o rapaz que Suzy lhe falava, era o louco que foi no bar aquele dia, estava sangrando, será que o Joércio acertou ele? "Mas o inútil do Joércio nem conseguiu matar o cara?"
ali nascia uma nova amizade entre a tal de Suzy e Alice, viraram grandes amigas e compartilhavam muitos segredos até o fim de seus dias mais felizes e coloridos que se pode imaginar, e assim viveram felizes... Eu bem que gostaria que fosse assim, e de fato elas viraram conhecidas, mas amigas jamais, não era hora pra se confiar em ninguém, qualquer um poderia ser um assassino, um psicopata pronto pra matar, então não era hora de fazer amigos, Alice tentou não conversar muito, fingiu que ia ler uma coisa quando notou algo: Seu pequeno livro que comprara hoje de manhã de um sem-teto de olho torto que vendia pequenos livros de conto no trem, o livro parecia péssimo, ela comprou por pena do garoto, se chamava "os olhos da colina".. um nome ruim e sem impacto.. eu admito, mas foi assim que aconteceu, porém, Alice nem se preocupava tanto, exceto pelo fato de que sem o livro teria que agüentar as fofocas da sua recém-amiga, recém-revelada super chata.
Agora cada passo na vida de Alice e Joércio seria perigoso, Alice não iría trabalhar no outro dia, o melhor mesmo era fechar o bar na opinião dela, mas ela não foi e disse que estava doente.

Agora que Alice não foi trabalhar poderemos conhecer melhor sobre ela, pois no trabalho ninguém vive, nem se pode ser avaliado.
Alice gostava de pintar quadros, normalmente baseados em sonhos lúcidos, só não gostava de ter que correr nos sonhos, pois isso era tarefa difícil, ela fumava e gostava do cheiro da pólvora de fósforo queimando, mas não o da madeira, só o cheiro inicial da pólvora, Alice odiava quando entrava fumaça nos olhos e sempre arrancava o selo de "I.P.I." antes de tirar o primeiro cigarro da caixa. Mas voltando a nossa terrível e triste história, Nesse dia Alice ficou em casa desenhando e pintando, e foi um dia feliz, até a hora em que o mal bateu a sua porta, já no fim do dia, o clima estava escuro, o céu cinzento, a campanhia tocou profundamente, parecia anunciar a tragédia, Alice também pressentiu, abrindo as portas devagar com muito medo... a figura se revelou por fora das grades do portão, era nada mais nada menos que, inacreditavelmente... o seu namorado!

- Que surpresa!!

De fato era uma surpresa, algo inacreditável pois o rapaz não aparecia por lá a umas semanas...

- Eu vim te ver, fiquei sabendo dessas coisas loucas que tão acontecendo com você!

- Ah! obrigado!

Alice deu um abraço demorado ali mesmo no portão e depois entraram, a noite continuava feliz e agora Alice estava mais segura.

Tom voltou ainda desacreditando tudo que ocorrera até ali, na volta recuperou o livro que estava no lugar mais óbvio mas que ele ficou com medo de chegar perto, estava bem aonde ele levou o tiro, antes de chegar no bar e ser recebido a tiros por Joércio, Tom encontrara esse livro perto do bar, ele sabia que era da Alice pois aquele livro, por incrível coincidência havia sido escrito por ele, imaginou que Alice teria comprado no trem, via-se claramente o destino agindo sobre o casal de apaixonados, e ainda mais nítido isso ficou quando um papel caiu de dentro do livro, o coração de Tom apertou, ao virar o papel era uma conta de luz, era a primeira vez que Tom ficava feliz ao ver uma conta, apesar de ser um pouco cara, Havia o nome mais lindo que seus ouvidos já ouviram, mesmo saindo da boca de um homem feio e barbudo chamado Joércio que ele espancaria em seguida, havia também, logicamente, os dados, Tom não pensou em pagar a conta, mas ficou pensando se deveria ir ou não até lá...

Essas reflexões e decisões de Tom levaram o dia inteiro de pintar, ouvir música, cheirar a conta e sentir o perfume de Alice, na verdade ele não sentia nada além do cheiro de fezes e lixo, de onde ele encontrou o livro, quando ele estendia o livro no nariz, dava pra se ver uma mancha marrom nas costas do papel.
Já no fim da tarde ele finalmente decidiu, levantou-se pegou a conta e o livro: "Vou lá, invento qualquer coisa, sei lá devolvo o livro e a conta.."
Saiu de casa, fechou a porta, verificou o numero na conta, "é.. isso mesmo... é.."

Não demorou a achar a rua, os números foram chegando perto, estava perto.. e de repente achou, no momento que ia atravessar a rua um carro encostou bem em frente a casa de Alice, de dentro saiu um rapaz com a aparência mais arrogante e odiosa de todo mundo, Tom o reconheceu como seu inimigo natural, o ódio escorreu misturado ao suor na sua testa, começou a tremer, apertou as mãos. O rapaz desceu e apertou a campanhia, nessa hora a cena na visão de Tom se dividido entre uma área escura e nojenta aonde estava seu rival e uma área divina, branca e luminosa aonde aparecia o rosto de Alice, abrindo a porta devagar, demonstrando surpresa e alegria.

Mas o dia acabava ali, "que estúpido!", como ele foi pensar que aquela garota inacreditável iría estar por aí andando sem namorado, nunca é como nos filmes, ele logo deu meia volta e foi pra casa beber, usar drogas e afogar as mágoas pintando quadros de ódio e sofrimento, logo ele que só bebia por gosto e só pintava quadros de sonhos felizes, o amor era estranho mesmo, era próximo demais do ódio, ele começou a filosofar e escrever coisas idiotas e suicidas na parede, logo ele que nunca pensava em se matar, que adorava a vida, de repente dormiu entorpecido e não sonhou, dormiu como uma pedra, logo ele que não perdia um sonho..

Alice sentiu um ar inseguro e confuso no seu namorado que nem mesmo quis se sentar, ela perguntou se estava tudo bem, ele fugiu do assunto e disse que precisava conversar, o que mais poderia falar? Alice era esperta e sensível demais, só olhar e as meias palavras já eram suficientes, saiu naquela noite com uma estranha sensação, pois não se sentia tão triste por ele, mas se sentia rejeitada e mal valorizada, depois de semanas ele volta pra acabar com tudo, que terrível, ela saiu para dar uma volta e foi parar em um bar, mas não aquele aonde o velho Joércio foi espancado, era um bar diferente cheio de drogados e prostitutas, Alice nem notou isso ao entrar, só percebeu um rapaz desenhando sem parar um desenho rabiscado, sentiu vontade de conversar com ele, ele estava de óculos escuros e escondendo o rosto, ela se sentou ao lado dele olhando o desenho, tentou puxar assunto ele nem virou a cabeça, devia estar drogado, estava escondendo os sinais disso, ela viu pouco do rosto dele ele nem parou de pintar, ela olhou e falou:

- ah.. eu também gosto de pintar..

Nessa hora o sujeito se virou e olhou pra ela, ela deu um pulo ao reconhecer que era o bandido que perseguia ela e o bar onde ela trabalhava, pensou em correr, foi indo pra trás e ele retirou o óculos, ela sentiu a profundidade da tristeza no rapaz, teve mais pena do que medo e achou que ele era quem deveria ser salvo, ela falou que ele era o maníaco e perguntou porque ele fazia isso, ele não conseguia falar direito, puxou o livro com a Conta e entregou pra ela. ela ficou abismada, gaguejou algumas palavras e perguntou:

- Quem é você ?

Ele olhou pra ela, sentia a esperança retornar, de repente até a bebedeira e os efeitos das drogas passavam, tudo ficava claro e iluminado, tratava-se de um sonho lúcido, ele não saiu de casa naquela noite, estava sonhando com a mulher da sua vida, "num bar desses?" era impossível, ele teve vontade de rir e ficou pensando quando o sonho tinha começado, se tivesse começado a mais tempo então seria ótimo pois toda aquela coisa de namorado no portão não teria acontecido, mas não poderia, ele hesitou, sentiu que aquilo do namorado era verdade, que o sonho começou depois que ele foi pra casa encher a cara, o brilho da cena se apagou, ele olhou pros lados confuso, "quem é você?" continuava a voz suave a perguntar, ela parecia um anjo naquele lugar podre, tinha vindo pra salvá-lo, ele apontou o nome do autor do livro e disse, eu sou o Tomas Trevor, é nome artístico..


Alice impressionava-se cada vez mais com o jovem drogado, sujo e violento, sentia que tudo aquilo tinha a ver com ela de alguma forma, ela ficou olhando profundamente para Tom, e derrepente ele se levantou gritando:

- AAAAAHH EU QUERO ACORDAR!!! NÃO AGUENTO MAIS SONHAR COM ESSA MULHER!!!


Assim ele saiu correndo e Alice ficou horrorizada, "ele é mesmo muito louco esse cara.", Tom empurrou umas pessoas e correndo até a saída empurrou o segurança e saiu pra rua, começou a vomitar sem parar, sua visão escureceu, logo atrás Alice veio para ajudá-lo e parou de súbito na porta do bar ao ver a última cena que seria pintada na sua vida, Tomás estava no chão, um caminhão enorme de lixo ao seu lado, a cena da tragédia havia qualquer coisa de familiar para Alice, uma sensação de Dejá-Vu, ela sentiu vontade de chorar, mas não sabia porque, ela nem mesmo conhecia o sujeito louco, mas mesmo assim ela sentiu que o conhecia desde pequeno, era uma parte dela se destruindo debaixo daquele caminhão da Emlurb.

Alice nunca mais tomou banho de banheira, nem pintou quadros, nem ligava mais para o selo do I.P.I.

Seu Joércio riu ao ouvir a história, tamanha falta de percepção fez com que Alice partisse naquela hora, o velho não percebia a tristeza dela? não entendia nada..E ela mesma não entendia nada, era só um estranho que havia morrido e ela por algum motivo não queria ficar naquela cidade, falou com sua mãe juntou o dinheiro que havia economizado desde a adolescência para o intercâmbio na Europa, a mãe dela completou e ela embarcou depois de umas semanas, chorou no avião, ao desembarcar na França lembrou de algo que sempre quis fazer com o seu grande amor um dia, mas agora ela faria sozinha, pois jamais se apaixonaria de novo, ela sabia que o homem da sua vida estava morto por um caminhão de lixo e ela nem sabia seu nome, o que ela sempre sonhou em fazer estava num bar chique no sul da França, ela entrou no bar e pediu uma taça de vinho, sentou na mesa e deu um gole olhando para o céu encoberto e sentindo o sol ameno do fim de tarde da França.

28 de agosto de 2006

Adilson contra a colina





Incontáveis anos se passaram e Adilson apenas conversava sozinho ou com o fantasma imaginário do seu pai, vez por outra conversava com sua vara de pescar. Desde que seu pai se fora ele não via ninguém, nem sentia vontade de conversar, por ali não moravam outras pessoas, eram apenas Adilson e o velho da colina. Ah sim, o velho da colina, era como Adilson chamava o velho que sentava todos os dias (ou quase todos) no alto da colina e ficava observando a estrada. Adilson passava pra ir pescar e o via ao longe, todos os dias no mesmo horário, "que vida idiota esse cara leva? Todos os dias a mesma merda, sentado aí no mesmo lugar olhando pra mim, qualquer dia eu subo a colina e vou perguntar o que ele faz da vida.."
Os dias passavam e Adilson quase sempre olhava pra ele e dizia pra sua vara de pescar: "na volta eu vou subir pra falar com ele, agora vamos correr pro lago senão fica tarde pra pescar.."


Adilson pescava como seu pai lhe ensinara desde pequeno, naquele lago que ficava perto de casa, todos os dias ele acordava cedo e ia descendo a estrada de costas para o sol nascendo, olhando pro chão e observando a estrada clareando e sua sombra diminuindo sobre seus pés, chegava no lago pescava por duas horas e voltava pra casa já sentindo o sol queimando a pele, na volta o velho também estava sentado ali na colina, tinha começado a aparecer por ali desde que o pai do Adilson se fora, e dali pra cá era todos os dias, talvez nem fosse todos os dias, Adilson nem prestava mais muita atenção na colina, mas todas as vezes que desviava o olhar do chão pro alto da colina lá estava o velho, na mesma posição em sua rotina que Adilson ás vezes se negava a acreditar que alguém pudesse viver assim.
"Na volta eu vou lá falar com ele, ás vezes sinto vontade de conversar com alguém"
Mais um dia começava e Adilson descia a estrada pra pescar.

Num dos dias mais frios, Adilson acordou no mesmo minuto, vestiu as botas como de costume e saiu pra pescar, o céu carregado de nuvens fez com que o caminho até o lago permanecesse escuro, Adilson descia a estrada olhando pro chão mesmo sem ver sua sombra projetada, era um dia bem diferente aos olhos de Adilson, mas uma coisa permanecia: o velho da colina, Adilson se espantou com a imagem, era um escuro quase absoluto, o sol encoberto pelas nuvens projetava uma luz amarelada e fraquíssima na colina, mas incrivelmente o velho estava sentado ali no mesmo lugar, ignorando o frio e o escuro, os olhos fixos na estrada ao pé da colina, observava..

Ainda estava escuro quando Adilson, sentando com dificuldade numa pedra á margem do lago, sentiu seus pés deslizarem pra trás e seu corpo cedendo bruscamente, o rosto encontrou o lodo no chão e o joelho esquerdo se abriu num corte ao se chocar na pedra, o cesto de peixes foi rolando até a água e ficou boiando lentamente.. "que cena estúpida.." As solas da bota já não davam mais conta da segurança e isso rendeu um corte no joelho e uma cara pintada de lodo escuro. Sentou se ali mesmo, passou os polegares nos olhos e olhou ao redor, na pedra uma mancha vermelha escura desenhava uma estranha forma de arte abstrata, inicialmente não sentiu nada, nem raiva nem dor física, nem vergonha e nem vontade de rir, não havia ninguém vendo, nem ninguém pra contar a história, o joelho nem doía tanto e o que restava fazer era simplesmente levantar e continuar a vida, foi levantando tateando o chão e de repente a luz começou a surgir lentamente, mas visivelmente prosperando, o sol ia se libertando das nuvens e finalmente pintava a paisagem de amarelo, Adilson viu as imagens tomando mais claridade, vários rastros do recente acidente, a arte abstrata estampada na pedra agora era de um vermelho vivo e brilhante, ao pé da pedra, abaixo da figura estava sua vara de pescar, ponta meio enterrada no chão, o nylon todo embaraçado indo até outro pedaço um pouco longe, era algo pra se preocupar: sua vara de pescar estava quebrada, nem joelho doendo, nem lodo entrando nos olhos, a tragédia estava ali, formando um estranho quadro junto com a mancha vermelha na pedra, sua vara de pescar, eterna companheira estava quebrada e ao olhar já teve certeza que não saberia consertar...


Desnorteado, nem se limpou, nem mesmo se lembrou da cesta de peixes, foi andando pra estrada olhando a vara partida nas mãos sentindo um nó na garganta e o gosto das lágrimas que já escorriam pelo rosto, andava sem olhar o caminho e na verdade nem precisava, ele já estava tão acostumado que podia fazer o percurso de olhos fechados, continuou andando e ao passar pela colina tentou evitar olhar, não queria ver ninguém e certamente o velho da colina estaria lá, mas de súbito bateu uma curiosidade e ele lentamente olhou para o alto da colina, e óbvio, lá estava o velho sentado, mas não foi isso que mais surpreendia na visão, o velho sentado ali nada tinha de novo, mas o que havia de tão absurdamente diferente e mudado era o horizonte atrás do velho, acima da colina, era outro horizonte que Adilson nunca viu, a luz alaranjada do sol pintava metade do horizonte e ia se juntando com um tom rosa que se tornava roxo, azul e depois azul escuro, olhando pra direita o Sol estava tão baixo como Adilson nunca imaginou que poderia estar, parecia tocar o horizonte e podia olhar pra ele sem sentir seus olhos queimarem.
"o que há no horizonte?.. que dia diferente é hoje?.."
Desde que Adilson colocou os pés fora da cama que estranhas coisas aconteciam, estranhas demais que ele jamais imaginara que poderia acontecer com uma pessoa, e agora até a natureza parecia estar mudada, continuou andando pra casa pensando o que faria em seguida.. afinal tudo estava fora dos planos, não pescara e voltava pra casa num horário totalmente diferente, razão pela qual talvez a paisagem se mostrava tão transformada, abriu a porta de casa, o ar era úmido e quente, mais uma nova sensação, o cheiro de podridão emanava mais forte por de trás da porta trancada do quarto do seu pai, ele pensou em entrar lá para procurar alguma coisa que servisse pra remendar a vara quebrada, ou talvez pegar a vara que era do seu pai que certamente estava lá dentro, mas a idéia era ousada demais, nunca tinha entrado no quarto do pai e depois que seu pai morrera isso não mudou, a porta ficou trancada por dentro e apesar de saber da existência de uma chave reserva no armário da cozinha, Adilson nunca se interessou em entrar lá, mas isso era antes...
"o dia hoje está estranhamente diferente.."

Parou á frente da porta e pensou por uns minutos, Adilson segurava a grande chave antiga pendurada na mão direita, aproximou a mão na fechadura, todos os movimentos eram devagar e cautelosos por se tratar de movimentos totalmente inéditos e decisões incertas, aumentava o cheiro de podridão, o cheiro não era sensação inédita, Adilson sabia do que se tratava, a chave girou com dificuldade e um clique ecoou como se tivesse quebrado alguma coisa, no entanto a porta se abriu quase sozinha, rangendo e revelando a cena guardada por trás da porta e cortinas fechadas por incontáveis meses, anos, décadas... Adilson não sabia ao certo quanto tempo havia se passado desde que seu pai morrera, mas a ultima lembrança que ele tinha era do pai doente andando com dificuldade e trancando a porta por dentro dizendo que era hora de partir, Adilson era jovem, mas entendeu o recado, chorou e aceitou o fato de que seu pai morrera naquela noite, não precisava de provas maiores, nem mesmo de provas visuais como essa que se desenhou diante dele nesse momento em que ele empurrou a porta e quase vomitou com a intensidade do cheiro que tomava o quarto, o ar pesado, ratos de vários tamanhos correram de todas as parte do chão, alguns desciam ou caíam da parede, todos íam pra baixo da cama ao mesmo tempo como se fazendo um movimento ensaiado, uma espécie de coreografia desviando das grossas teias de aranha que se estendiam do teto até o chão e Adilson imaginou que se não fosse pelo nojo de dar mais um passo ele poderia usar aquelas teias pra remendar sua vara de pescar, mas a ânsia aumentava, ele corria os olhos pelos detalhes do quarto procurando a vara de pescar do seu pai e logo a avistou, estava num lugar um tanto inconveniente, sobre a cama, mais precisamente com o seu pai, nas mãos dele, ou daquilo que um dia fora seu pai, agora restava sobre a cama um esqueleto putrefato com umas roupas sujas de várias manchas escuras que se estendiam até a cama, a mão esquelética fechada segurando a vara de pescar causava uma estranha ironia naquela visão caótica que não parecia perturbar Adilson, nada daquilo era surpresa pra ele exceto a vasta fauna de pequenos seres que habitavam todos os cantos do quarto, e o ar ia se tornando cada vez mais insuportável, era como se o simples fato de respirar ali já poderia matar rapidamente, levou a palma da mão ao nariz e boca e saiu andando pra trás, ganhou a sala e já conseguia respirar melhor, saiu de dentro da casa e finalmente.. ar puro.




Adilson ainda levava a vara quebrada nas mãos quando desceu a estrada e foi em direção ao lago novamente, percebia agora que era o único lugar pra onde poderia ir, na verdade era o único lugar que conhecia fora sua casa, se pelo menos pudesse pedir ajuda pra alguém que tivesse um jeito de arrumar a vara de pescar.. "Mas quem poderia?.."
E a colina surgiu a sua frente, lá havia alguém além dele num raio de quilômetros: O velho da colina.. Sentado no mesmo lugar como já era de se esperar, Adilson olhou para ele que agora parecia estar sorrindo, não era hora de parar pra pensar no que deveria ser feito, então desafiando costumes de uma vida inteira Adilson começou a subir a colina, e a cada passo ia se aproximando do velho que permanecia imóvel como que esperando ansioso, com aquele sorriso cada vez mais evidente no rosto, o nervosismo de Adilson aumentava.
O que diria? Como o velho reagiria? Estava chegando perto, mais uns passos e Adilson viu que havia algo escrito na camisa do velho, alguma marca de qualquer empresa que Adilson obviamente nunca tinha ouvido falar, mais uns passos, agora encarando o velho nos olhos e de repente algo pareceu estar terrivelmente errado naquilo tudo, Adilson desacelerou o passo, hesitou, mas continuou os passos lentos até paralisar boquiaberto diante do fato mais inacreditável que aquele estranho dia poderia reservar: o velho, eterno observador que eram como olhos da colina sobre a rotina mecânica de Adilson, tal rotina que ele próprio não percebia ao rir do fato de todos os dias ver o velho sentado ali e achar que este homem na colina vivia a vida e a rotina mais estúpida que alguém poderia suportar, não percebia que ele também passava por lá todos os dias no mesmo horário e por isso era capaz de percebê-lo, e num único dia que sua rotina fora quebrada tudo parecia desconfortavelmente diferente aos seus olhos, mas ainda assim algo não mudou: ele, o velho da colina, todos esses anos repousou ali intacto e Adilson percebia que não poderia ser diferente, já que agora subindo a colina percebia o fato: o velho sentado no alto da colina tratava-se na verdade de uma placa, não passava de uma peça de ferro indicando o caminho de uma trilha de mochileiros que levava até algum acampamento perto dali, aos pés da placa o chão era batido como se passasse várias pessoas por lá todos os dias, Adilson sentiu agora que a vida lhe escapava futilmente todos os dias, será que ainda havia tempo pra viver? Quanto tempo tinha? Pra onde iria? Olhou pra imagem do velho sentado que agora parecia estupidamente sem vida, uma seta aos seus pés indicava o caminho pela trilha que ia até mais a frente e depois subia a colina até o outro lado.

Seguiu a trilha com a visão até encontrar o horizonte no topo da colina que novamente se apresentava como um horizonte totalmente novo e promissor, abriu as mãos deixando cair os restos da vara de pescar que agora pareciam sem valor e talvez até representasse a sua perdição, não se conformaria em ter apenas a vara nas mãos até o fim da vida como fizera seu pai, já não podia mais admirar seu pai que agora parecia a lembrança de alguém covarde demais pra se arriscar a subir uma colina sem saber o que tem do outro lado, ou ir até além do lago ou seguir a estrada até o horizonte só pra ver aonde vai dar. Adilson foi subindo a trilha, o topo se aproximava, o coração batia acelerado pela emoção da eminente descoberta e ao ganhar o topo viu o outro lado da colina, paralisou diante da visão de um mundo novo que se estendia diante dos seus olhos, avistou aos pés da colina pequenas barracas de acampamento, pessoas sentadas conversavam e tiravam fotos, na água um grupo de garotas brincava com uma bola colorida e uma delas avistou Adilson parado no alto da colina e acenou para ele, nesse momento todos se viraram e viram Adilson, alguns faziam gestos convidando-o a se aproximar, Adilson hesitou mas logo não sentiu mais medo pois ao olhar lá longe percebeu que havia mais um horizonte totalmente novo pra ele, e a sua direita já era outro... e a esquerda mais um..